Ex-bonecas?

Investigamos o universo das ex-travestis

por Deco Ribeiro

(Foto: Imagens: Reprodução Ana Carolina Fernandes/UOL)

Um projeto de lei de autoria do presidente da bancada evangélica, deputado João Campos (PSDB-GO), levantou novamente a polêmica sobre a existência ou não de “ex-homossexuais”. Apresentado no Congresso Nacional, o projeto prevê auxílio do governo para “curar” essas pessoas.

Não, não concordamos que seja possível modificar a orientação sexual de alguém, muito menos por meio de remédios ou terapias – mas e a identidade de gênero? Existem ex-travestis?

Medo e preconceito

Transites Especial saiu a campo em busca de quem passou por essa experiência. Conversamos com um ator e um senhor de idade, que já viveram e abandonaram a travestilidade, mas nenhum dos dois quis falar sobre o assunto. “Um dos motivos que podem levar uma pessoa a tomar essa decisão é justamente o medo de sofrer preconceito”, explicou a psicóloga Bárbara Meneses, do Centro de Referência Especializado de Assistência Social LGBT (CREAS-LGBT), de Campinas (SP).

Bárbara conta que já atendeu alguns casos de ex-travestis e que o fenômeno não é incomum. “Além do preconceito, já tive pacientes que optaram por deixar de ser travesti por se considerarem muito velhos pra isso [continuar tomando hormônios e construindo um corpo travesti]. Outros alegaram medo do ridículo”, afirmou.

Uma experiência de vida

O jovem Felipe, 24 anos, foi um dos poucos que aceitaram falar sobre sua experiência. “Eu comecei para ganhar dinheiro fazendo programa”, conta o rapaz. “Percebi que era mais procurado quando estava vestido de mulher do que como boy. Deixei, então, o cabelo crescer e comecei a tomar hormônio”.

Seu corpo logo tomou formas femininas: “Me tornei uma mulher”. No entanto, a vida como travesti não se mostrou fácil: “Comecei a perceber que os homens não respeitam mesmo as mulheres. Muitos clientes me humilhavam, não queriam me pagar, e, se eu reclamasse, me batiam”.

Outra situação nova enfrentada por Felipe foi a falta de oportunidades no mercado de trabalho: “Apesar de sempre ter estudado e ter um bom currículo, todas as portas se fecharam. Já não aguentava mais trabalhar na rua e, como travesti, não conseguia nenhum emprego formal. Ninguém contrata uma travesti para trabalhar numa loja ou num comércio, atendendo pessoas”.

Felipe decidiu parar de se prostituir, cortou o cabelo e os hormônios. O corpo voltou a assumir contornos masculinos. Em pouco tempo, arrumou emprego em um banco. “Eu gostava de ser travesti, mas estou melhor sendo só gay”.

Falsas travestis?

Seriam esses casos de uma falsa travestilidade? Para a psicóloga Bárbara, não existe tal coisa. “Não acho seja o caso de se tachar tal travesti de falsa ou de verdadeira. Acredito que todas que vivem na pele a travestilidade podem ser consideradas travestis, mesmo quando deixam de expressar isso publicamente”.

Segundo a psicóloga, uma mudança ou mesmo o abandono de uma expressão sexual travesti não muda a identidade de gênero da pessoa, como ela se sente por dentro. “Assim como um gay ou uma lésbica pode ter um relacionamento hétero sem que isso afete sua orientação sexual, travestis podem não expressar essa sexualidade – ou mesmo deixar de fazê-lo – e continuarem sendo, no íntimo, travestis”.

(Foto: Imagens: Reprodução Ana Carolina Fernandes/UOL)

Bárbara também fez questão de pontuar o caso das igrejas que afirmam “curar” gays e exibem pastores “ex-travestis”: “O que a igreja faz é mudar o comportamento, não a orientação sexual, não o desejo – e, acredito eu, a identidade de gênero também não”.

A questão socioeconômica também influencia muito, principalmente no Brasil, diz a psicóloga. “Essa questão que o Felipe aponta, do mercado de trabalho, existe, sim”, afirma. “Na verdade, por trás de todas essas declarações, podemos enxergar fortemente a pressão contrária da sociedade”.

Pressão social

Para explorar melhor esse ângulo, conversamos com a drag queen Lohren Beauty, membro do Conselho Nacional LGBT, órgão ligado à Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

Lohren, que se identifica como transgênero, pois, como drag, ela “transita entre os gêneros masculino e feminino”, acredita não ser este o caso das ex-travestis. “A pessoa transgênera sente-se com duas identidades, masculina e feminina, tanto que geralmente adota um nome feminino sem abandonar o masculino, uma vez que ela consegue vivenciar alternadamente ambas”, explica. “Já a travesti, não: ela se sente travesti e pronto”.

Lohren também acredita que os casos de ex-travestis nada têm a ver com mudanças na identidade de gênero, mas sim com preconceito: “As pessoas ainda não se sentem despidas da falsa moralidade”.

Para a conselheira, a homofobia e a transfobia prejudicam a vida das travestis, não só no mercado de trabalho, mas também nas instituições de ensino: “Na verdade, muito desse falso moralismo tem sua origem justamente nas escolas. É preciso entrar firme com o combate ao preconceito no ambiente escolar”.

Para os homens que amam travestis, vale dizer que CREAS-LGBT de Campinas pode ser acessado pelo número 0800-771-8765, e a Secretaria Especial de Direitos Humanos recebe denúncias de homofobia e transfobia de todo o País pelo telefone 100. Pode ser a diferença na hora de ajudar sua gata.

Imagens: Reprodução Ana Carolina Fernandes/UOL

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